Ainda outra da Folha de hoje:
"...] PRECISAMOS PENSAR SE QUEREMOS MANTER ESSE CLIMA DE SERVIDÃO VOLUNTÁRIA AO GRUPO"
Artigo da Rosely Sayão (de novo pra assinantes, sorry. Capaz de liberarem na Folha Online amanhã ou depois), falando sobre pressão de grupo, contando um causo, inclusive, de uma criança que recebeu uma listinha de itens que ela tinha que adaptar na sua pessoa pra ser aceita pelos coleguinhas da sala de aula.
Coisa assim fascista mesmo, e pior, que hoje em dia parece ser o último grito da moda: todo mundo tem que ser igualzim todo mundo, ou apanha, vide o caso da gostosa da Uniban, coitada.
Vale a pena ler o artigo, mas, pra contrapor o gostinho deprê que ele deixa na boca, eu (JUSTO EU, óia que bisurdo) tenho a dizer o seguinte:
Eu passei a vida inteira, inteirinha, inteirona, sendo a criatura que destoa. Não só porque eu sou assim uma coleção de "defeitos" (pobre, baixinha, de óculos, gorda, perna curta, chata, peituda, nerd, "mal vestida", tímida e lésbica), como também porque eu nunca consegui tentar ser igual aos outros.
Não que eu não tenha tentado: tentei, mas a maioria é imbecil demais pro meu gosto.
Eu, magra, era roliça, tinha peitão, coxão, cabelão, mas era tampinha e não conseguia fazer as caras e bocas retardadas que as garotas "populares" faziam, eu meio que nasci sarcástica e de cara amarrada mesmo. Muito menos usar shortinho enfiado na bunda e miniblusa, por mais que a minha mãe (que queria ser "A Popular" muito mais do que eu, apesar de já ter 40 anos na época) tentasse me empurrar esse tipo de roupa, ou deixar de usar jaquetão jeans quando era nova, eu adorava o meu, usei até se acabar.
Eu, no cursinho, não conseguia perder a fama de "A Inteligente, Supra-Sumo do Saber, Aquela A Quem os Professores Elogiam", que peguei desde que entrei numa classe pela primeira vez na vida. Isso, só e apenas tão somente porque eu prestava atenção no que o mané de microfone da vez estava falando, anotava o que era dito e escrito, e discutia a respeito no intervalo, ao invés de me entupir de bolos confeitados (eu tava de dieta na época, e mesmo que não estivesse, eu mal tinha um passe de ônibus pra voltar pra casa depois da aula, não tinha dinheiro nem pra comprar uma água sem gás), ou ficar de paquera na porta do Objetivo.
Eu, no trabalho, gorda de novo, cheia das tendinites e gastrites violentas, entupida de antiinflamatórios e corticóides, era a mula de carga, me virando em 5 pra dar conta do serviço, sempre ocupada demais pra falar com quem quer que fosse, sem QI (quem indica, que quociente de inteligência eu até tenho, thanks) e sem glamour, até porque quem tem dor até pra escovar o cabelo acaba desistindo de produções complicadas.
Em compensação, apesar de ser assim o estereótipo da "A Excluída", eu sempre fui popular, no sentido de ser apreciada mesmo. Todo mundo sempre falou comigo, e olha que eu NUNCA dei cola, nem vantagem de qualquer outro tipo, pra ninguém (também nunca ganhei, mas até aí, nunca esperei ganhar nada).
No cursinho o negófo chegou às raias do ridículo, nego que eu nunca tinha visto mais gordo(a) na vida me cumprimentava na rua. Pelo nome. Eu não enxergava interesse romântico ou sexual por parte de ninguém (e isso era problema meu mesmo; havia alguns caras interessados que eventualmente se declararam de forma tímida, mas eu era mega-complexada e confusa com esse lance de romance - porque será, dã... - então não dei bola), mas a galera gravitava em volta da minha pessoa, mesmo.
No trabalho, nunca tive dificuldade em ser aceita, e criar amizade com as pessoas que eu achava legais.
No amor, bom, depois de um crash course de "Relacionamentos Hetero: Por quê homens não servem para mulheres lésbicas, mesmo que eles sejam legais", achei a mulher da minha vida, que eu amo, desejo e admiro com paixão; fazem 11 anos que ela me ama e me atura, e olha que eu muito mal e porcamente me suporto.
Hoje eu não tenho tantos amigos quanto quando eu tinha 20 e poucos anos, mas os que tenho são amigos há tempo suficiente pra eu saber que continuam amigos porque curtem a minha pessoa, apesar de eu ser uma criatura tristonha que sente MUITA falta de mais civilidade neste país miserável. Eu também continuo amiga porque gosto deles, com todas as qualidades e defeitos que eles têm.
A única coisa que eu fiz a vida toda, porque funciona, foi tratar os outros como eu gosto de ser tratada. O que não quer dizer puxar o saco: eu dou as mesmas trauletadas quando vejo os outros fazendo mega-merdas que eu agradeço ter levado toda vez que fiz, ou ia fazer.
Eu não vou deixar conselho pra ninguém, cada um leva a vida como quer: mas sinceramente, o Pastor Dennis (que eu nunca vou esquecer, junto com todo mundo que me ensinou alguma coisa que preste pra vida) tava certíssimo quando me disse que a única coisa realmente útil, ÚTIL mesmo e que é pra levar no coração, de qualquer religião, é que o tal do "Amai-vos uns aos outros como a ti mesmo" funciona. Inclusive pra quem é diferente.
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