Sal da Terra

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A nefasta mente brasileira: Presunção

Um dos problemas que eu e a patroa temos, quando falamos com gente de outros lugares do mundo, é explicar como funciona cabeça de brasileiro. Isso porque nego, lá fora, não acredita nas coisas que a gente passa por aqui.

Não, no resto do mundo, traficante derrubar helicóptero da polícia não é comum.

E também não, não é comum a população de uma cidade querer comparar traficantes de casa, durante um enfrentamento comezinho, derrubar um helicóptero da polícia, com um ato isolado de terrorismo internacional.

Quando a gente comenta, por exemplo, que mulher no Brasil ganha menos SÓ porque é mulher, que mulher aqui trabalha mais horas e tem mais responsabilidades que os homens no mesmo cargo que elas, nossos amigos em países menos botocudos ficam de queixo caído. Sabe, lá na civilização mulher ganha menos no geral porque a maioria delas assume MENOS responsabilidades, e trabalha MENOS horas, pra poder cuidar da molecada em casa decentemente. Jornada de 80 horas semanais totais (60 no trabalho fora, 20 em casa, quando não mais) pra mulher, pra quem mora em lugar de gente, é ficção científica.

Pra facilitar a nossa própria memória, eu vou organizar aqui algumas particularidades da mente do brasileiro, que ajudam na hora de tentar explicar como nós, criaturas deste Brazil Varonyl, vivemos.

Primeiro lugar:

Brasileiro presume tudo. Não existe no planeta Terra povo mais metido a sabichão que este aqui. Logicamente, porque o brasileiro é metido a sabichão, não só ele se recusa a aprender qualquer coisa (porque já nasceu sabendo), como também jamais admite que tenha estado, esteja, ou possa um dia estar errado.

Exemplo prático:

Compramos um colchão novo. Tamanho padrão casal, 1.38m x 1.88m, que nossa cama (de madeira, daquelas que têm traseira e criados mudos juntos, e gavetões)é desse tamanho, é boa e não vamos trocar tão cedo.

Quando a gente comprou, fizemos questão de saber se tinha o colchão desse tamanho, porque a gente queria um colchão macio, bom, gostoso de deitar, e que me permitisse deitar de lado sem estourar meus ombros. O que, em colchonês, significa top de linha.

Achamos o danado do corchão, na medida certa, na maciez e conforto que queríamos. Saiu caro, mas como a gente troca de colchão mais ou menos de 8 em 8 anos, tá valendo.
Junto, compramos um conjuntinho box solteiro, baratinho, pra poder melhor acomodar visita aqui em casa. Na hora de fechar o negócio, assinamos um documento doando nosso colchão pra uma caridade que a loja ajuda, ficamos cientes que a entrega ia demorar 15 (sim, quinze) dias, fechamos, e pronto.

No dia da entrega, prestenção no ocorrido:

Chega o caminhão aqui na frente de casa, ainda estávamos arrumando a cama pra receber o colchão novo (Dona Jessica botou uma chapa de MDF em cima do estrado pra proteger os gavetões de poeira, e a gente estava furando a dita-cuja pra poder ventilar embaixo do colchão, pra não criar mofo). Os homi botaram a mercadoria na sala, levaram o colchão velho, eu conferi a nota, tava tudo aparentemente nos conformes, foram embora.

2 horas depois, quando terminamos (inclusive a faxina) e fomos inserir o colchão novo no estrado... era Queen.

Tem nada a ver com o Freddie Mercury não, Queen é o tamanho do colchão que desovaram aqui em casa. Só vimos nessa hora, porque, eu como criatura IMBECIL que sou, esqueci que tava morando em país de população com QI limítrofe, e achei que, se tava na PORCARIA da NOTA FISCAL, o desgraçado que tinha separado o produto pra meter no caminhão tinha colocado o bicho do tamanho certo.

Jo soy una bêstia.

Liguei lá no SAC da empresa que me vendeu o corchão. Me atende uma moça, que, ao ouvir minha historinha, pede pra consultar o sistema lá deles. 15 minutos depois, a mulé fala que lá no estoque deles não tem corchão tamanho casal, nem pra empréstimo, que vai ter que encomendar o bicho de novo, porque a loja não deve ter encomendado, e que é pra eu ficar com o que entregaram aqui.

E a mulher não entendia, coitada, COMO eu não queria um colchão Queen Size. Afinal de contas, o colchão que eu comprei é Top de linha, e só compra colchão Top de linha quem tem no mínimo uma cama Queen Size, porque a cama tem que ser tão chique quanto o colchão, fora ser box, que é assim obrigatório.

JURO que eu tive que explicar 4 vezes que minha cama NÃO é box, que o bicho sobrava 20cm na largura e 10 no comprimento, que eu não tenho área útil no chão pra um colchão daquele tamanho, e olha que nem mencionei minha cachorra doente, que tá dormindo dentro de casa, e, óbvio, faz xixi no chão.

A mulé não conseguia enfiar na cachola dela que EXISTE gente que AINDA dorme em colchão de casal. Eu fico aqui matutando: a gente que dorme num quarto de 15 metros quadrados não tem espaço pra enfiar uma cama Queen, de onde diabos vem essa demanda toda por colchões imensos, já que 99% dos apês vendidos aqui em SP têm o quarto principal MUITO menor que o nosso? O que diacho o povo faz, usa o colchão de dublê de carpete, também?

Puisé. Na SEGUNDA ligação, depois da mulher falar com o motorista do caminhão, e ele falar pra ela que não tinha entregado outro colchão do meu modelo, e a mulé lá DE NOVO querer que a gente ficasse com o trambolho, a Jessica interferiu, porque eu não aguentava mais.
Fala sério, cachorro doente, obra, faxina, revisão de carro, suspeita de retorno da maldita herpes zoster (coitado do meu PV, daqui a pouco ele pede as contas, de tanto fazer hora-extra), MAIS a perspectiva de ficar sei lá quanto tempo dormindo direto no estrado, dá não.

Jessica Luchesi, na sua santa paciência, explica a situação DE NOVO pra mulé do SAC, explica que o colchão da gente TEM que estar lá, porque a gente VIU o vendedor fazendo a encomenda (outra coisa que a mulé não queria aceitar), que a gente estava esperando há 15 dias, e que eu não tenho como dormir sem colchão.

É, porque, sabe, LEVARAM O NOSSO COLCHÃO VELHO.

A mulé fala que vai ver o que dá pra fazer, com voz de corpo-mole, e desliga. Patroa olha o telefone, vai atrás do cartão do vendedor pra ligar na loja mesmo. Eu amo a minha muié.

Na loja, ela explica a situação pra quem atendeu (o vendedor já tinha ido embora, não demitido, pra casa dele mesmo), a pessoa passa pra gerente; a gerente consulta o sistema, acha a encomenda do colchão, e concorda que o bicho tem que estar lá no depósito deles mesmo.
Depois de ligar no depósito e pedir pro supervisor lá IR OLHAR cos óio mesmo se o colchão tava lá, a gerente liga pra gente pra dizer que OOOOOHHHHH, o colchão tava lá sim. O conferente, na hora de mandar carregar o caminhão, mandou subir o tamanho errado.

Lógico que a mulher do SAC não fez isso, até porque ela presumiu que, se não tava no sistema dela, não existia. Imaginar que um produto que teoricamente foi colocado no caminhão pra entrega ia ser retirado do sistema é física quântica demais, também.

Por conta dessa presepada toda, quando acharam o colchão, não tinha caminhão pra entregar. Por quê? Porque a empresa terceiriza a entrega pra outra empresa, que por sua vez contrata caminhoneiro free-lancer. Tradução: quando os mano termina de entregar os lances, eles desligam o nextel e vão pra casa com o caminhão, e aí, mano, babau.

A essa altura do campeonato eu já tava sentada no estrado fazendo tricô, porque ou eu fazia tricô, or else.

Na segunda vez que a gerente da loja ligou pra falar que não conseguia achar caminhão, eu que falei com ela. Ela perguntou também por quê a gente simplesmente não usava o colchão grande, e lá vai a ladainha explicativa toda de novo. Mais explicar, também, que aqui não é apartamento (provavelmente porque imagina-se que ninguém que mora em casa compre colchão), e que, por isso, ela podia sim mandar entregar o bicho de noite, que não ia ter problema.

Na terceira ligação (mais ou menos 7 da noite), a gerente finalmente avisa que arrumou um caminhão pra entregar, e que o bicho vai sair do depósito, do outro lado da cidade, depois das 8 da noite, por causa do rodízio. Ficamos muito felizes.

Até as 8 e meia da noite, quando a mulé do SAC liga aqui em casa, com uma voz muito brava, que acharam nosso colchão e que só iam entregar no dia seguinte.
Como ela INSISTIU que não iam entregar naquela noite mesmo, mesmo com a Jessica explicando que tinha falado com a gerente da loja e a gerente da loja tinha confirmado que achou um caminhão, resolvemos ligar lá na loja, porque a idéia do cara do caminhão chegar no depósito pra resolver nosso problema e levar um "Ah, é só amanhã, pode ir embora" me fez entrar em pânico.

Na loja, a gerente tinha ido embora, e deixado um funcionário ciente do nosso caso. Este ficou espantado da mulé do SAC ligar aqui e falar aquilo, afinal de contas ele tinha ligado no SAC e avisado o chefe dela que o colchão ia chegar aqui na nossa casa naquela noite. O rapaz ligou no motorista do caminhão, e confirmou que nosso colchão já estava a caminho da nossa casa. Agradecemos muito, e desligamos com o rapaz indo ligar no SAC, de novo.

E assim, 9 e meia da noite, chega o bicho, e pudemos descansar nossas pobres carcaças.

Tudo, tudinho, tudíssimo, culpa da mania de brasileiro presumir tudo.

Ah, e, por quê diacho o conferente não conferiu o tamanho do corchão antes de mandar carregar? Eu que sei? De repente o cara achou que é impoƒíveu alguém querer um colchão bom de tamanho comum, resolveu que a nota tava errada, não olhou, tava falando com alguém no celular, ou com vontade de fazer pipi. Nessa hora, só dá pra presumir mesmo.

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