Sal da Terra

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

E aí Noel?

As nuvens se abrem, o cheiro delicioso de comida escapa do forno, o porco, marinando desde ontem, começa a pururucar.

A casa arrumada, o bambú no meio da sala sendo decorado pelas mãos carinhosas da minha mulher, enchendo o verde de fitinhas e bolas amarelas. Uma árvore de Natal brasileira para um Natal brasileiro.

E olhamos pela janela da cozinha para o portão de madeira, esperando a campainha tocar.

Os gansos correm pelo jardim, e o sol do dia 25 se vai. E ficamos sozinhas como qualquer casal gay, sem família, todos os amigos tomados pelas suas.

E aí Noel?

Como é que é viver no Polo Norte? Os duendes são bons de biriba? A pelada é boa? Ou todos eles estão hoje no dia de folga com suas famílias, com suas celebrações próprias, e você e a patroa, depois das entregas do dia 24, são os únicos humanos no meio do gelo, sozinhos, pra curtir um ao outro, mas só.

Mas é melhor a sala vazia, e a vontade de cozinhar pra quem não vem, do que a falsidade e a hipocrisia de um jantar cheio de gente que não te suporta e desaprova as escolhas de vida que fez.

O tempo passa, a TV ligada na programação de Natal não ajuda o tempo a passar, e mostra o quanto a sala está vazia. Eu entro no MSN um pouco, e ninguém está online, saio de novo, vou cuidar dos gansos, pego alguns ovos que foram postos desde a manhã e sento no gramado, com os pés no lago.

E aí Noel? Fodido sem lago nem sol quente? Sem leitão a pururuca, sem biriba, sem amigos? Não tem dinheiro no mundo que pague amigos, nem compre os verdadeiros, aqueles que ficam pra sempre.

Mas cada vida segue um caminho, nem sempre as linhas cruzam.

Natal é foda.

E aí Noel?

O sol cai por terra, e o escuro toma o sítio. A bruma da serrinha cobre o gramado, com as luzes dos postes jogando um véu amarelado sobre a escuridão. E faróis surgem na estradinha, a campainha toca, e no fim do dia 25, começa nossa festa de Natal. Chegam os amigos, com seus filhos, pro banquete que deveria ser enterro dos ossos. Sem obrigações de família, sem ilusões. Apenas o leitão, os acompanhamentos, e a amizade.

Feliz Natal.

Pra todo mundo que não tá aqui.

Pra todo mundo que queria estar.

Pra todo mundo que tem coisa melhor o que fazer, mas ainda assim gosta da gente.

E aí Noel? Talvez pro ano que vem, seja melhor derrubar o cargo, e implementar a Democracia Corinthiana no Polo Norte. Seu fim de 25 ia ser bem melhor :)

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial