O Pão de Santo Antônio....
E a fila se forma, milhares de pessoas entram na fila da igreja, pra pegar o pão de Santo Antônio. Todas as velhinhas carolas começam a se benzer, até que uma torce o nariz, e segue o mesmo com o olhar, achando o Velho Zé. Cutuca a da frente, e aponta com o polegar por cima do ombro, o velhinho de rosto sofrido mas sorriso impassível que acaba de entrar na fila.
“_Olha quem veio pegar o pão nena!”
“_Jesus Cristo, mas não se tem mais dignidade nessa igreja!”
“_Pois é! Gente de bem não pode mais ficar em paz”
“_Aposto que vai pegar o pão e comer...”, diz Dona Nena, visivelmente irritada. Cutuca Maria de Jesus, velha filha de portugueses, enrolada numa mantilha preta ( apesar de nunca ter casado ), que segue em frente, passinho após passinho. “Maria, olha quem entrou na fila”, apontando nada discretamente, numa meia virada, como se vendo um Exú presente em seu território sagrado.
“_O Velho Zé! Mas como deixaram ele entrar? Será que o Padre não vai fazer nada a respeito?”
E o Velho Zé, apesar de tudo ouvir, segue sorrindo com a sabedoria de quem tudo já viu, tudo já teve, e tudo perdeu; e numa garrafa de pinga, numa noite fria sob uma ponte escura, entendeu o sentido da vida, a grande piada, o grande milagre. Segue seu caminho, pega o pão, abraça o padre, e segue para fora da igreja. Volta para seu cantinho na praça, abre uma lata velha de leite ninho, e coloca seu pãozinho entre os parcos grãos de arroz. Coloca tudo numa sacola de ráfea, e segue seu caminho, em paz, lembrando da esposa que já foi, dos filhos que não mais vê, e de como tudo passa.
Nena, Maria, e a outra, respiram aliviadas, que por mais um ano, aquele ali não há de se mostrar. Agora podem seguir rezando em paz.
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